Vai, menina. Vai em frente que a gente tem que ir sozinha.

20:25 Ísis Higino 0 Comments


Vai com ele ali na padaria.
Ou, vamo ali comigo.
Vai com cuidado.
Vai pela sombra.
Vai com Deus.

Mas ninguém nunca diz como é ir sozinho.
Ninguém conta das agruras do piano que você quer ouvir mas não sabe como tocar.
Ninguém te explica como se fraciona a dor no peito pra aprender a lidar consigo mesmo sem subtrair o que quer levar consigo. O horóscopo do metrô não tá me dizendo certo e não acho que diabos que está errado. O médico diz que a dor no peito é só ansiedade, vai passar. "E a pressa de futuro, também vai, doutor?" Diz ele que não sabe responder. Volto pra casa e a rua tá em reforma. Proibido passar por aqui, diz a placa. Maldito governo, sorte, predestinação, acaso
                                                ou até mesmo essa solidão.

Não chora, vai de bicicleta. Afinal, se a vida te dá um limão é pouco, tem que ser dois. Azar dela que não gosta de limonada e nem pra tequila vai usar. Não, não vou aceitar essa porcaria não. Mas oras, que diabos é isso que eu preciso mesmo aceitar tudo que o destino me trás? Sou um diacho de um fio de cabelo fora do lugar, aquele que não se contenta com pentes e nem chapinha. Acho que nasci pra ser torta e fora do lugar.

    
"O mundo não para, não. Não senhora. Acho que tu cometeu um engano, deve ser por conta do sol, confunde mesmo a cabeça. Talvez cê possa voltar na semana que vem, não dá não, moça?"

A mãe disse que ela já tem idade suficiente pra se virar sozinha, deu até dinheiro pra passagem do ônibus. Tem que confiar, ela disse. Joga na mão de Deus e vai, minha filha. Ficava encabulada. Afinal, qual motivo pra tanto? Se era capaz de ir embora por que é que tinha que ficar nas mãos do moço de barba que ela nem conhecia e que olhava com cara de bravo pra ela? Não achava ele de todo simpático, na verdade todo mundo culpava ele por tudo e isso nunca parece uma coisa boa que tudo quanto há no mundo fosse culpa de um só. Foi o que a Bárbara disse na hora do recreio, afinal: "Se alguém faz coisas ruins pras pessoas a gente não dá pra ser amigo."

Como a gente se vira com os outros num mundo que ao mesmo tempo quer que a gente seja independente, individual e sozinho mas também popular feliz e sociável com todo mundo? Por que os raios caem? De onde vem o mundo? Pra que que eu vou pra escola? Por que eu tenho que aprender isso e não aquilo? Respira, moça, respira. A boca seca o coração palpitante isso tudo é ansiedade não fica assim já vai passar então para de ter pressa que amanhã cê já tá bem. Para, para de chorar, não quis dizer que você tá ruim assim, não tem nada de errado, você não tá quebrada por dentro. Atestado de vinte dias com um carimbo em vermelho que dizia LIVRE POR MOTIVOS DE SAÚDE. Dava até gosto de ver, chega sentia o peito mais leve, quase como se fosse uma carta de alforria, afinal o doutor disse.

Ufa, tá tudo certo, agora vão dizer o que eu tenho e vão me dar um remédio pra sarar essa fome de não sei o quê que me deixa grávida de presente passado e futuro. Acho que vou até comprar um baú pra guardar tudo isso, afinal a TV tá dizendo que pra ser feliz não dá pra carregar esse peso todo, vou até gastar os vinte dias vendo essas mulheres magras que comem tudo e ficam felizes em campos de rosas quando menstruam. Tudo uma beleza, é assim que a vida deve ser. Pra que infelicidade quando dá pra ser feliz sozinho, ninguém precisa de ninguém e todo mundo tá sorrindo aí na janela? Quando a vizinha vem te visitar ela também sorri, dizendo que vai passar. Afinal, vai passar o quê? E como cê sabe, hein moça? Volta aqui, não não eu quero saber de onde vem sua certeza que te deixa viver tão bem assim.

"Ora menina, deixe de ser abusada, olhe só que Deus castiga isso, isso é pecado esse questionamento todo. Vou falar pra sua mãe que cê tá precisando é duma louça pra lavar, ora onde já se viu isso ser doença? Doença emocional porque não sabe de onde vem pra onde vai, isso é tudo frescura. Você para de achar que pode saber tudo, vai pra igreja orar umas vezes que já já isso passa."

Não, ninguém explica. A dor passa, passa mesmo? Ou será que o riso do outro é só a janela da sala que não te deixa ver a alma? No fundo tá todo mundo assim tão fudido ou será que é exclusividade da minha mente não sã ter que questionar até o não existir? Malditos filósofos, esse conhecimento que quanto mais se sabe menos sabe essa história de só sei que nada sei isso tudo é demais pruma alma só. E mais uma vez ninguém responde. Aprende a dançar sozinha, aprende, vai menina.






Ísis Higino

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